ALIMENTA-TE DE MIM
Alimenta-te de mim
Como quem se alimenta
De um pedaço de carne.
Bebe os meus pensamentos
Em estado líquido
E se em estado sólido
Estiverem, ajuda-me!
Ajuda-me a lapidá-los,
Fazer deles ensinamentos
De mim para ti,
De ti para mim...
Ajuda-me a existir e a espalhar
A minha mensagem.
Vem, ficando onde estás,
Enquanto me conecto contigo
Sem te tocar ou conhecer.
O alimento é vasto
E o tempo é gasto
À procura daquilo que não conhecemos.
Mas vem, vem conhecer-me
Sem saberes os poderes
Que não tenho e, se puderes,
Ajuda-me, pois não sei para onde vou,
Nem sei de onde venho...
Alimenta-te dos meus sonhos,
Angústias e esperanças
E aprecia como danças
Ao sabor deste vento insípido.
Aprecia, enquanto avanças,
Deliciando-te da paisagem
Nesta passagem para o vazio.
Esvazia-me, estando eu
Prestes a esgotar a
Última gota da minha vontade.
Enche-te de mim,
Mas não te esqueças,
Também tu terás um fim,
Por favor, não enlouqueças.
SADO
Eu rio, mas não desaguo
Acumulo tudo em mim.
Estou cheio e não flutuo,
Sou âncora à procura de um fim.
Sou fonte infinita
Aflita por novas danças.
Sou maré alta
Numa piscina de crianças.
Desde a nascente que corro assim
Evito ser um lago.
Penso, logo inspiro.
Penso, logo naufrágo.
POEMA ENSANGUENTADO
Tenho uma hemorragia interna
Na carne do meu poema
E não existe salvador
Para a dor que deveras sinto.
Escorre sangue deste poema
Desvanecendo a cada verso.
E eu converso com o que pressinto
Pressionado pelo quotidiano.
Pondo tudo na balança,
Não encontro o meridiano.
Sou um poema kafkiano,
Ensanguentado e sem esperança.
Sou um niilista entristecido
Por ter sido triste a vida inteira.
Sou cada verso escrito,
A arder na minha lareira.