RUAS
Vagueio por ruas apertadas
Em busca de regalias.
Encontro tudo o que não desejo
E o que versejo, prevejo
Que fique em ruas vazias.
Vagamente, uma vaga de mestria
Corre com fulgor p´las veias.
Fruto de uma epifania,
Pousado na mercearia,
Esperando que um dia o leias.
Liga a rádio e ouve o que digo,
Não quero mais, senão estar contigo.
Vê a caixa do correio,
Creio que mesmo baixa
A esperança ainda existe.
Por ruas apertadas vagueio,
De mãos atadas, cabisbaixo e triste.
MULHER
Tantos séculos desprezada
Atrás de um marido
A servir de empregada,
Em casa acorrentada
Cuidando de rebentos.
Hoje trabalhas o triplo
E nada de aumentos.
Não sei como aguentas
Essa agonia dolorosa,
Prometo-te o esplendor,
Oh mulher esplendorosa.
Farei tudo o que for preciso
Por ti, bonita rosa.
Quero o teu eterno sorriso,
Oh, mulher chorosa.
O teu choro é precioso
Guarda-o p'ra felicidade.
A mais não se deseja
Peço apenas igualdade.
Carregas o peso da humanidade
Não existo longe de ti,
És tu quem nos dá continuidade
És o que me (co)move desde que nasci.
De zero a dez, dou-te novecentos.
Homem, um eufemismo para tormentos.
Mulher,
Mereces o protagonismo da tua existência
Dou as minhas forças ao feminismo,
Estou do lado da resistência.
QUANTO CUSTA VIVER
Morto-vivo com displicência
Ocupa lugar de quem quer entrar.
Num estado puro inexistente, com
Tédio de existência, a expirar.
Quem não conhece que lhe pegue
E tente puxar d'um sorriso,
Provável que lhe negue,
Num sentir simples e conciso.
O que é preciso p'ra ser feliz?
Existir não é suficiente?
Estar é difícil, mas quem
Deseja ir é insolente.
Palavras generalizadas
Arranjam sempre complicação,
Quem quer ir tem o direito
D'encontrar sua paz num caixão.
Cai chão, cai teto
A casa fica acabada.
Ficam quadros nas paredes
D'uma passagem complicada.